sábado, 24 de outubro de 2020

As minhas contrariedades

 Agora que expliquei a origem do nome deste blogue, vou falar um pouco das minhas contrariedades.

Há uma semana e pouco desafiei uma amiga minha a irmos jantar, ela precisava de falar sobre os problemas que estava a ter com o relacionamento dela e eu a tentar aprender com os erros dos outros para perceber porque é que o meu relacionamento de 9 anos tinha ido por água abaixo. O restaurante italiano era um espaço pequeno, mas que face ao elevado número de pedidos de uber eats a porta da rua estava sempre aberta e só lá ficamos porque apreciamos a companhia um do outro, para me proteger do frio ficamos sentados lado a lado, este detalhe pode ter sido determinante mas já lá vamos. Quase duas horas de jantar e ainda fomos dar uma volta para a praia para falar, ela falou, eu falei mas estava um frio horrível e perto da uma lá fomos cada um para sua casa. Segunda-feira começo a sentir um pouco de tosse e claro que a piada foi logo COVID no final do dia começo a sentir um mau estar muscular muito forte e acabei por não ir trabalhar no dia seguinte, para não correr o risco de contagiar ninguém e porque deveria ter férias para gozar de 2016 optei por não ir trabalhar no dia seguinte. Na quarta-feira a minha amiga liga-me tinha sido mandada para casa por ter 2 colegas com Covid-19, tendo em conta que 5 antes tínhamos estado mais de 3 horas juntos não me restou outra decisão do que no dia seguinte informar a minha entidade patronal e ficou decidido que eu ficaria em casa preventivamente e se quisesse fazia algum tipo de tele-trabalho mas que o importante era eu estar bem. Apesar de eu não ter qualquer tipo de sintomas, optei e optámos por me manter em casa até indicações do SNS Sistema Nacional de Saúde, liguei para a Saúde 24 e eles deveriam achar que eu queria ficar em casa com o apoio da segurança social, depois de eu explicar que o meu objectivo não era esse mas sim evitar qualquer propagação, lá concordaram que o meu auto-isolamento era uma atitude correcta a fazer. Nesse mesmo dia a minha amiga informa-me que ficou sem olfacto e paladar, um dos sintomas que são mais específicos desta pandemia. É aqui que começam as minhas contrariedades, porque surge numa altura em que estou tão isolado do mundo que tenho de escrever. Cheguei ao ponto que passei a utilizar sacos de lixo mais pequenos só para ter uma desculpa para ir despejar o lixo todos os dias, claro que não toco directamente com as mãos nas partes comuns do prédio. As minhas contrariedades surgem na necessidade de contacto humano, de extravasar as minhas ideias e mesmo que isto não seja lido por ninguém elas estão cá fora. Se isto já era algo em que pensava há vários meses, agora que não sei o que é o toque de alguém há 8 dias chegou a hora das contrariedades serem soltas... e sabe tão bem partilhar. 

Contrariedades de Cesário Verde

Não me recordo ao certo o ano, mas foi algures entre 1992 e 1996, o local foi a Escola Secundária José Afonso em Loures, também carinhosamente conhecida por Liceu Velho. Apesar do aparente jeito para os computadores onde me refugiava para não ter de contactar com ninguém, tive de fugir à matemática e decidi ir para a variante de artes e  até porque era algo que me desafiava - pois eu não tinha e não tenho o mínimo jeito para artes plásticas. Foi através da disciplina de Português cuja professora era a Professora Maria João - que me ensinou muito mais do que Português, que eu percebi que havia um grupo de teatro na escola e que a professora era a líder. Ansioso por fazer parte de algo e de me forçar a interagir com pessoas o Ita Vero era o passo ilógico que deveria seguir. Contrariedades surge na primeira parte de uma peça que participei e consistia numa interpretação de um poema que ainda hoje é um dos meus poemas favoritos e uma traição ao meu poeta favorito Fernando Pessoa. Os versos em Contrariedades de Cesário Verde são uma obra prima e julgo que o Fernando Pessoa ou algum dos seus heterónimos me perdoaria por esta pequena traição. Este é o poema onde eu me abrigo quando estou irritado, este é o poema que gosto de citar para impressionar alguém este é o poema que mais me marcou na minha vida.

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!
 

Cesário Verde


 

 

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